Um professor e a nobreza de uma causa...

15-09-2017 08:20

Foto de Sílvia Costa.

Jorge Rio Cardoso é natural de Lisboa e doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Aveiro. É professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e técnico superior do Banco de Portugal. Desde 2008, com o seu inovador livro O Método Ser Bom Aluno – ‘Bora Lá?, abraçou a causa de combate ao insucesso e abandono escolar. Tem percorrido centenas de escolas portuguesas conseguindo, com sucesso assinalável, cativar muitos alunos para o desafio do conhecimento.

Neste sentido, pela nobreza da causa que abraçou com entusiasmo e pelos resultados alcançados, quer com os seus livros, quer com o seu trabalho de terreno, o Blog convidou o Profº Jorge Rio Cardoso para integrar a equipa de Mindset Experts da nova rubrica do Blog, que hoje é lançada. E estivemos à conversa.

P.M. -  Profº Jorge, como se decidiu "abraçar" a causa da Educação?

J.R.C. - Bom, isso tem a ver com a minha origem, na medida em que comecei por ser um mau aluno e isso marcou-me bastante. Depois, comecei, enfim um bocadinho à minha custa, a aprender métodos de estudo que eu não tinha, a interiorizar regras e comecei-me a aperceber de que as notas são evidentemente importantes mas que não são tudo. Daí que, porque passei por essa situação, do que se sofre quando se é um mau aluno, resolvi escrever um livro de auto-ajuda para quem passa por este tipo de problema.

P.M. -  Foi um processo difícil ou fácil e natural?

J.R.C. -  Foi simples. O primeiro passo foi escrever e lançar o livro em 2008, o qual teve 4 edições, teve muito sucesso. Depois, as escolas começaram-me a solicitar para fazer palestras sobre o tema e como se dava a coincidência de ser professor e de ter alguma facilidade de comunicação, as coisas foram acontecendo de forma crescente e com naturalidade. De salientar que esse primeiro livro que escrevi não chegou aos tops nacionais mas em 2012, foi o livro mais vendido em Portugal num determinado período e durante algumas semanas, tendo em conta o top que regista as vendas efetivas e que reúne as livrarias que nós conhecemos (Fnac, Bertrand, etc), além  de todos os pontos de venda existentes a nível nacional.

As solicitações das escolas têm vindo a crescer desde essa altura e todos os anos faço cerca de 300 palestras. É claro que existem dias em que faço 3 palestras (uma para alunos, outra para professores e outra para pais) mas existem muitas palestras a que não posso aceder por causa da distância. Mas na Madeira, nos Açores e até nas comunidades de emigrantes, através do Instituto Luís de Camões, tenho feito sessões para escolas e para pais.

P.M. -  O Prof. Jorge identifica-se com os jovens de hoje em dia?

J.R.C. - Sim, completamente. Às vezes tem-se a ideia de que eles não retêm muito conhecimento e hoje em dia o reter conhecimento e o reproduzir não é o aspeto mais importante. O mais importante é sabermos pensar, sabermos trabalhar juntos, ter a competência de trabalhar em equipa, criar empatia com os outros. Acho até que os jovens de hoje em dia são melhores do que aqueles do meu tempo, em que cada um ficava no seu cantinho e em que havia alguma dificuldade de comunicação.

P.M. - Que principais diferenças aponta entre o Ensino atual e o de "antigamente"?

J.R.C. - Há bastantes diferenças e creio até que haverá uma grande evolução nessa matéria. Aliás, a política do Ministério atualmente tem ido muito nesse sentido. Acho que durante várias décadas assistiu-se à cultura da nota, em que a nota era tudo e hoje em dia nota-se que as competências pessoais, digamos, a educação com valores, é muito importante porque uma boa nota às vezes pode esconder um aluno egoísta, que não tem respeito pelos outros. É perfeitamente compatível que isso aconteça e portanto, mais que a nota e isso não quer dizer que a nota não seja importante, interessa ter um espírito crítico, interessa saber trabalhar cooperativamente e adquirir essas competências que são essenciais ao longo da vida, nomeadamente a solidariedade e o respeito pelo outro.

P.M. -  Tem sido difícil sensibilizar os jovens para a importãncia do sucesso escolar?

J.R.C. - Talvez possam não estar muito sensibilizados mas as palestras têm exatamente esse objetivo, o de os "despertar" e de ganhar alguns alunos para esta causa. Aliás, quando eu digo que comecei por ser um mau aluno, acaba por haver ali uma grande identificação, fazendo-os pensar que "ok, este foi um mau aluno e agora até dá palestras". Portanto, ganha-se sempre alguém para a causa. Nunca hão-de ser todos, claro, pois isso seria utópico mas há muitos alunos, sobre os quais tenho recebido feedback das pessoas, dos pais, que agradecem porque de repente, eles vêm ali alguma mudança, em que os jovens começam a ver que conseguem ter tempo para divertir-se e ao mesmo tempo estudar e ter uma vida equilibrada.

P.M. -  O que foi retirando e experienciando no decorrer do seu trabalho de terreno junto das Escolas? Tem sido estimulante?

J.R.C. - Sim, bastante estimulante. Em geral, quando se faz esse trabalho, tem sempre continuação porque as escolas pedem para fazer mais atualizações, ou para alunos dos anos seguintes ou porque houve resultados positivos no ano anterior. Geralmente ficamos com uma relação muito próxima com as escolas e aqui falo essencialmente de escolas que não estão tão bem classificadas no Ranking. Agora estou-me a lembrar, por exemplo, da Escola Secundária do Mogadouroque era a última escola do Ranking e em que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, com o dinheiro que sobrou da campanha, deu um subsídio porque precisamente me tinha perguntado qual era a pior escola classificada para que pudesse ajudar, em que se fez um trabalho muito interessante e em que nesta altura, já não se encontra em último lugar. Este é um trabalho que não é só meu, é de todos, uma vez que se eu vou a uma escola, faço uma palestra, explico métodos de estudo e em que depois não há continuação com os professores de lá, as coisas não atingem o seu objetivo. A ideia é que seja um trabalho conjunto, que o esforço e os "louros" sejam divididos.

P.M. -  Quais é que considera serem os aspetos a alterar para um maior sucesso escolar?

J.R.C. - Pois eu diria que é a autonomia das escolas. Por outro lado, o problema do insucesso escolar, o que o motiva, pode ser diferente no norte do país, no sul ou no interior, pelo que as escolas devem ter a autonomia para tomarem as medidas mais acertadas para obviar o insucesso na sua região e isso é muito importante. Depois, o ensino também tem de fazer com que o aluno construa o seu próprio conhecimento, ou seja, se estamos a falar de História de Portugal, pode-se propor que o aluno explique algo, ou através de um vídeo, ou através de banda desenhada ou de outra forma qualquer, tornando a aprendizagem mais atrativa e possibilitando a construção do conhecimento. Hoje, o ensino ainda é muito expositivo e portanto, há muitos alunos que acham tudo aquilo uma maçada. Depois, a pedagogia tem de mudar um bocado, porque os alunos, pelo menos até aos 15 anos, são muito focados naquilo que é o presente, o presente para eles é tudo e nós se tivermos de explicar o passado e perspetivar o futuro, temos de passar pelo presente, descer um bocadinho à realidade deles, mostrando algum respeito pelo aluno. Se fizermos isso, e eu poderia dar aqui muitos exemplos de como isso se faz, acaba-se por conseguir que os alunos fiquem mais estimulados e nesse aspeto, comecem a ligar mais ao estudo.

P.M. - Qual deverá ser a responsabilidade dos pais,  professores e Ministério da Educação?

J.R.C. - Começamos pelo Ministério da Educação, que terá de dar mais autonomia às escolas e aqui existem já muitas escolas que já assinaram contratos de autonomia. Depois, as escolas deverão retirar alguma informação das experiências positivas levadas a efeito por outras, nomeadamente o colocar os jovens a falar pois por vezes são detetadas dificuldades de comunicação oral e isso é negativo. Às vezes estamos a falar de um problema que é quase social -  há países e em que a televisão vai para a rua e de repente todos falam e opinam, até mesmo pessoas que não têm uma grande escolaridade - em Portugal vê-se ainda alguma dificuldade de expressão das pessoas, em reunirem consenso e terem um pensamento estruturado. Isso faz-se praticando. Depois, também a responsabilização, a partilha, as reuniões na escola, são aspetos positivos que estimulam a cooperação. Nas escolas com contrato de autonomia existe um ensino mais flexível, em que os alunos são avaliados quando acham que estão em condições de serem avaliados. Isto é, evidentemente, um sistema mais amigável e motivador.

P.M. -  E os professores, com essa maior flexibilidade, penso que também se auto-motivam para o ensino, não concorda?

J.R.C. - Claro. A questão dos professores é que têm programas para dar, vão ser avaliados por aí, se deram ou não o programa, e ficam com pouco tempo para outras competências tão ou mais importantes que as competências cognitivas. Se um professor não deu o programa é "chamado à pedra".

Existem quatro etapas num ensino eficaz: a primeira é que o professor perceba o que tem de dar e estar muito por dentro dessa matéria. Depois, há uma coisa tão ou mais importante que é "como vou dar essa matéria", como vou conseguir passar as ideias de forma eficiente e eficaz aos alunos. Porque eu posso chegar ali e expor ou posso passar um vídeo, posso arranjar uma atividade interativa ou fazer uma visita de estudo. Há muitos aspetos e as aulas têm altos e baixos, tem que ter vários ritmos no sentido de ser uma aula motivadora. Às vezes até uso a imagem de um eletrocardiograma, em que vai acima e vai abaixo e quando isso não acontece é porque a pessoa morreu. A aula é exatamente assim. Uma aula morta é uma aula que não tem motivação. Depois, o terceiro ponto é o professor ter alguns elementos que lhe possam indicar se os alunos aprenderam ou não, em que o professor possa ter um feedback sobre se as aprendizagens foram conseguidas e isso, claro, pode ser um teste ou podem ser perguntas em aula. O quarto e último ponto é exatamente ver o que vai fazer com os alunos que não aprenderam, onde tem de existir pedagogias alternativas para não ensinar da mesma forma, na medida em que os resultados seriam os mesmos. Todos nós não aprendemos da mesma maneira, nem ao mesmo tempo, temos ritmos diferentes e por isso tem-se de adaptar as pedagogias aos que ficaram para trás.

P.M. - Mas, muitas vezes o que os professores dizem é que não têm tempo, que não têm tempo quase para dar o programa, quanto mais para ajustarem pedagogias...

J.R.C. - Claro, existe o problema de os programas serem por vezes muito extensos, apesar disso ter vindo a ser melhorado e depois o facto de as turmas serem muito grandes, o que acaba por tornar difícil a questão de dar a matéria e de se conseguir chegar a todos.

P.M. -  Quais são os desabafos/dificuldades que tem registado junto dos/das jovens?

J.R.C. - Pois, os jovens acham sempre que estudar é um grande aborrecimento e aquilo que se tem de dizer é que há coisas mais agradáveis, mas que esse esforço vai sempre valer a pena. Algumas vezes os jovens não têm método de estudo, o que dificulta tudo.

P.M. -  Refira três adjetivos fundamentais para se ser um bom aluno.

J.R.C. - Esforço, dedicação e persistência são as qualidades que um bom aluno deve ter. Sem elas, será sempre difícil um aluno poder tornar-se num bom aluno.

Muito obrigada Profº, pela disponibilidade com que acedeu ao meu covite. As maiores felicidades e êxitos para esta causa. Continue a inspirar os nossos alunos para o desafio do conhecimento e as escolas para o desafio da aprendizagem. Até breve.

 

 

 


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