Medo ou ousadia...a história da 4L

11-04-2019 23:44

Resultado de imagem para 4L

Corria o ano de 1990. No último ano da Faculdade, surgiu a oportunidade de um part-time como técnica de formação em Lisboa. Excelente. Entusiasmada por ganhar um dinheirito, e de conseguir conciliar os estudos com o primeiro contacto com o mundo laboral, lá fui e fiquei. Estava entusiasmadíssima e no primeiro dia, o diretor esclareceu que teria de visitar algumas empresas clientes, no sentido de verificar os dossiers técnico-pedagógicos e de constatar se tinham os elementos em dia. Deu-me para a mão as chaves de uma viatura da empresa, aproximou-se da janela do escritório e mostrou-me, do 6º andar, o local onde a mesmo se encontrava estacionada. De chaves na mão e sem qualquer experiência de condução em Lisboa, apenas como mera utilizadora de transportes públicos, pensei "não posso desistir, vou tentar." Chegada ao local da bendita viatura, reparei que era um modelo vintage, meti as chaves na fechadura, entrei e sentei-me. Enquanto me ia ambientando ao interior da viatura, verificando todos os manípulos, procurei pelas mudanças. Não existiam. Não estavam onde supostamente deveriam estar. "E agora?", pensei eu. E ali estive, muito atrapelhada durante 5mn a espreitar para todo o lado, tentando encontrar as benditas mudanças. Pelo retrovisor, vi aproximar-se um senhor idoso e logo abri a porta para lhe pedir ajuda. O senhor, mal me ouviu, deixou sair um sorriso e disse: "Ó menina, isto é uma 4L, as mudanças estão junto ao volante." E lá me mostrou com imensa simpatia e calma, como deveria fazer. Agradeci-lhe e ali fiquei por minutos a pensar se deveria subir e dizer que não conseguia conduzir aquele tipo de viatura ou, se me deveria desafiar e tentar. desenrascando-me. Bom, liguei a 4L, pus a primeira, destravei e andei. Devagar, muito atenta, cheia de calores e de olhos bem atentos, segui no meio do caos lisboeta. Enganei-me nos percursos várias vezes, levei com buzinadelas, perdi-me mas, indiferente aos outros e muito atenta, consegui sempre cumprir com a minha missão e nem um arranhão na viatura. Quando na Faculdade contei a história deste primeiro dia de trabalho, as minhas amigas residentes em Lisboa disseram que era maluca, que nem elas, mesmo com uma viatura normal, conduziriam em Lisboa. Passados uns tempos, a 4L e eu, já éramos "comadres";)

Conto esta história imensas vezes, sempre que abordo a questão dos medos, da resistência à mudança e orgulho-me daquela minha ousadia e de acreditar que poderia conseguir, do meu ingénuo atrevimento e o que é certo é que temos de nos atrever a fazer, a ser, a querer. Não há nada exterior a travar-nos o caminho. Nós é que nos travamos a nós próprios/as nas várias circunstâncias da vida.

Os medos, os receios corróiem a nossa auto-estima, corrompem a nossa autoconfiança, fazem-nos crer que somos perdedores e perdedoras e assim, se não os vencermos, nunca teremos a ousadia de vencer.


Contactos