Uma Escola do séc. XIX no séc. XXI...

27-05-2017 11:20

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Refere o Artº 73 da Constituição da República Portuguesa que "Todos têm direito à educação e à cultura; O Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, o desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de compreensão mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e para a participação democrática na vida colectiva (...)".

Desta transcrição saliento o facto de se afirmar que ao Estado cabe a democratização da educação, de tal forma que garanta a superação de todo o tipo de desigualdades, que garanta o desenvolvimento da personalidade, do espírito de tolerância e de responsabilidade para o progresso social. Onde é que isto tem vindo a ser feito? Têm sido tantas as alterações, os desequilíbrios no ensino, que me parece surreal. Será que não estamos perante uma Escola do séc. XIX, onde o ensino não é mais do que uma indústria mecanizada, preocupada apenas a cronometrar tempos e resultados, onde se debitam matérias descontextualizadas, onde as crianças e jovens são "peneirados" e se excluem a frio as "peças defeituosas", como se se tratasse de uma linha de produção em série? O que me parece é uma de duas coisas: ou o Estado é de uma incompetência inadmissível ou está consciente do que tem feito e que o Sistema de Educação tem tido o objetivo de criar uma elite de alunos, sob a condição do esforço máximo destes. Se assim for, o tão apregoado Direito à Educação tem tido resultados brilhantes: insucesso escolar, perturbações emocionais nos jovens e professores, problemas de relacionamento interpessoal, falta de tolerância e falta de respeito mútuo.

Onde está a ética profissional que garante o acesso de todos os cidadãos e de todas as cidadãs à Educação? Existe sim, uma corrupção tanto moral, como ética em todo o corpo técnico que tem trabalhado no Sistema Educativo Português. Não acredito que sejam incompetentes.

A Educação deve ser INTEGRAL, para todos, para todas e não se deve LIMITAR ao domínio cognitivo, mas afetivo, emocional também. As crianças e jovens PRECISAM, têm esse DIREITO. Onde é que se ensinam as aptidões pessoais e sociais, tão necessárias a uma vida "saudável", à sua felicidade e à vida em sociedade? Existe uma iliteracia latente em termos emocionais e depois "perdem-se" jovens. As Escolas são pessoas, não são meros edifícios e métricas. As pessoas são valores, transformados em princípios de ação que mais tarde gerarão projetos de vida. Onde é que nas Escolas, se trabalha esta questão? A Escola que temos tido, a do séc. XIX, tem produzido ignorância e infelicidade.

As Escolas têm de ser humanizadas, a aprendizagem tem de ser SIGNIFICATIVA (saber a utilidade de estudo das matérias); INTEGRADORA, DIVERSIFICADA, SOCIALIZADORA e ATIVA. A Escola tem de ser uma comunidade de aprendizagem efetiva, não de ensino massivo. Os professores e professoras devem poder escolher a melhor metodologia para uma aprendizagem eficiente e eficaz e as Escolas devem ter autonomia pedagógica. Definitivamente. 

Parece que agora seis Escolas vão ser submetidas a um Projeto-piloto, onde terão autonomia para implementarem novas medidas pedagógicas para eliminar os "chumbos", de forma a que se CUMPRA com a tal garantia de que TODOS/AS aprendam. Mais um teste mas que seja este o caminho pois as crianças e jovens não podem continuar a ser cobaias como têm sido. Por outro lado, também o corpo docente terá de finalmente recuperar a sua paixão e motivação pelo ensino e pela aprendizagem dos seus alunos e alunas. De qualquer modo, parece-me que não há muito que inventar pois a metodologia certa já foi descoberta: a da Escola da Ponte. Porque não se atesta a sua eficácia e se utiliza como modelo em TODAS as Escolas? No fundo, voltamos à mania de complicar o que é simples. Ou talvez não queiram admitir que é simples. Talvez hajam interesses económicos envolvidos...e voltamos à questão da ética...todavia, a esperança é a última a morrer.

Termino com uma questão: porque razão se aplicam agora testes do tipo americano nas Escolas? É esta a forma correta de se avaliar os saberes? Lembro-me perfeitamente que na altura em que andei no liceu, nenhum professor ou professora adotava este tipo de perguntas de cruz na medida em que eram anti-pedagógicos. E agora? Agora temos dois tipos de situações: ou os alunos e alunas  sabem a matéria mas bloqueiam simplesmente com este tipo de testes ou os que até nem estudaram acabam por acertar por sorte e continuam sem saber a matéria. Está certo? O que era anti-pedagógico, já não é? Mudámos sim...mas para bem pior. Mas...cada um ou cada uma de nós, deverá ter uma posição ATIVA, nem que seja divulgar e partilhar opiniões. Calar é que não.

 

 


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