Trago ao Universo um novo Universo...porque é o Dia Mundial da Poesia

21-03-2017 15:03

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Deste Modo ou daquele Modo

Deste modo ou daquele modo. 
Conforme calha ou não calha. 
Podendo às vezes dizer o que penso, 
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas, 
Vou escrevendo os meus versos sem querer, 
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos, 
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse 
Como dar-me o sol de fora. 
Procuro dizer o que sinto 
Sem pensar em que o sinto. 
Procuro encostar as palavras à idéia 
E não precisar dum corredor 
Do pensamento para as palavras 
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir. 
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a 
nado 
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar. 
Procuro despir-me do que aprendi, 
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me 
ensinaram, 
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, 
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, 
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, 
Mas um animal humano que a Natureza produziu. 
E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer 
como um homem, 
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada. 
E assim escrevo, ora bem ora mal, 
Ora acertando com o que quero dizer ora errando, 
Caindo aqui, levantando-me acolá, 
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso. 
Ainda assim, sou alguém. 
Sou o Descobridor da Natureza. 
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras. 
Trago ao Universo um novo Universo 
Porque trago ao Universo ele-próprio. 
Isto sinto e isto escrevo 
Perfeitamente sabedor e sem que não veja 
Que são cinco horas do amanhecer 
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça 
Por cima do muro do horizonte, 
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos 
Agarrando o cimo do muro 
Do horizonte cheio de montes baixos. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLVI" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

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