Silves Medieval revive história do mestre errante...

15-08-2016 23:55

Só agora é que tive tempo mas aqui fica o relato da minha ida à Feira Medieval de Silves. Ontem, o dia estava bem quente e pelas 18h45 rumámos a Silves. Lá chegados, ofereceram-nos umas sementes torradas deliciosas, a temperatura ainda rondava os 30º e foi a melhor hora para se encontrar mesa disponível. As ruas já estavam plenas de gente e dirigimo-nos a passo apressado até à zona das tasquinhas medievais. A moeda de pagamento era o xilb (euro cunhado de maneira diferente) e a maioria dos assentos eram fardos de palha. Optámos por chouriço assado, papas de milho, sopa da pedra e febra no pão. No final, vieram crepes e waffles. Depois, percorremos as lindas ruelas empedradas e decoradas, visitámos as imensas tendas com artigos diversos: roupas, bijouteria e joalharia, peças decorativas artesanais, espadas, artigos em couro, brinquedos artesanais, chás, frutos secos, doces, ginginha. Enfim, ficámos maravilhados com tanta coisa e com a qualidade dos artigos. Os assadores eram muitos e numa das tendas de crepes, estes eram feitos de uma forma bem diferente; as frigideiras estavam suspensas, sobre fogo intenso e os crepes saiam no ponto pois as frigideiras eram constantemente retiradas do fogo e rodopiadas. Era um espetáculo para apreciar. Algumas tasquinhas tinham nomes curiosos (Filhos da Mãe, Pharmacia Viking, Taberna do Calabouço) e todas divulgavam benefícios para a saúde.

A feira, este ano, teve como tema, Ibn Oasí, um mestre errante que nasceu, viveu e morreu em Silves, na primeira metade do séc. XII. É uma época politicamente conturbada, em que no comando, temos os intolerantes Almorávidas, tribo aguerrida do Norte de África, e os também norte africanos Almóadas, decididos a reunificar o poder a partir do seu centro politico sediado em Marraquexe. É neste ambiente pesado e hostil, em que prepondera o jogo politico, que as alianças e os pactos acontecem, ao sabor das conveniências dos que, muitas vezes, escondem a sua ambição sob a capa da religião. 

Figura central e incontornável da  história local de Silves, é Ibn Qasî, que nasce em Silves, no seio de uma família abastada de raízes cristãs. A morte súbita dos pais quando ainda jovem fá-lo trocar a sua vida de prazeres por uma postura séria e responsável. Reafirma a sua devoção ao islamismo, vende os bens que herda da família, doa metade do dinheiro aos pobres e com o restante constrói um convento destinado a monges guerreiros (rîbat), não longe de Silves, que virá a ser sede da doutrina que funda com suporte espiritual no sufismo: o muridismo. 

Ibn Qasî difunde a sua doutrina e capta a atenção de populações que se revêm no seu pensamento formando-se núcleos locais de apoio também em Mértola e Niebla. Diz-se que assume o título de Madhí (Messias) e que a ele são atribuídos feitos divinos como a viagem a Meca numa só noite. A doutrina múrida contraria, no entanto, alguns dos princípios do islamismo e a censura muçulmana persegue e condena os múridas. 

Ibn Qasî decide extravasar a contestação doutrinária e inicia uma guerra política que lhe permite aceder ao governo de Mértola e Silves. Estes feitos dependeram, contudo, de estratégias politicas que empreende e que o levam a alternar as alianças, ora com almóadas, ora de novo com almorávidas. É, no entanto, a sua aliança com D. Afonso Henriques, senhor de Portugal, que afronta os dominantes almóadas mas sobretudo desgosta as classes possidentes muçulmanas que em Silves até aí o haviam apoiado. 

Ibn Qasî é então assassinado por um grupo de conspiradores, liderado por Ibn Al-Mundhîr, um dos seus apoiantes de longa data, senhor de Silves que com ele se havia incompatibilizado. O mestre murída é decapitado, espetada a sua cabeça na lança oferecida por D. Afonso Henriques e passeada pelas ruas da cidade com o grito: “Eis aqui o Madhí dos cristãos”.

E agora, recomendo vivamente que visitem a Feira Medieval de Silves: este ano ou para o ano. Termina a 21 de Agosto/16.

É uma experiência bem agradável. Fica a sugestão.


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