Penedo da Saudade...um hino de amor e saudade a Coimbra

29-09-2016 12:08

Após a visita ao Jardim Botânico, subi em direção ao Penedo da Saudade. Lá chegada, contemplei a deslumbrante paisagem e verifiquei estar, mais uma vez, num dos lugares mais bonitos da cidade. Ali reina a tranquilidade, o sossego, a paz e facilmente nos deixamos levar pela inspiração. Da varanda do miradouro, vê-se Coimbra, o Rio Mondego, a Serra do Roxo e a Serra da Lousã. Talvez por ser um local especial, contemplativo de Coimbra, tenha sido o lugar escolhido pelos estudantes para fazerem dele um Santuário de amor e saudade a Coimbra. 

O Penedo da Saudade foi construído em 1849 e todo ele é dedicado à cultura coimbrã e à sua academia, encontrando-se inúmeras placas comemorativas de eventos ligados à vida académica e poesias de alunos. A mais antiga data de 1855.

Sob o olhar contemplativo de João de Deus (1830-1896), eminente poeta lírico e pedagogo, considerado à época o primeiro do seu tempo, e o proponente de um método de ensino da leitura, assente numa Cartilha Maternal, o Penedo é uma dedicatória de amor eterno a Coimbra.

João de Deus gozou de extraordinária popularidade e foi quase um culto, sendo ainda em vida objecto das mais variadas homenagens. Foi considerado o poeta do amor e encontra-se sepultado no Panteão Nacional da Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa.

João de Deus foi o 4º de catorze irmãos, não lhe permitindo a situação sócio-económica da família aspirar a uma carreira universitária, ingressando no Seminário de Coimbra, então o único caminho para prosseguir estudos aberto aos menos abonados. Em 1850, aos dezanove anos, não tendo vocação para a vida eclesiástica, ingressou na Universidade de Coimbra como estudante de Direito.

Logo no ano de ingresso na universidade revelou o seus dotes líricos, escrevendo versos que circularam manuscritos no meio académico e com os quais obtinha modestos rendimentos que ajudavam na sua parca subsistência. 

Em 1859, terminado o curso, opta por permanecer em Coimbra, praticando pouca advocacia e continuando a escrever, agora produzindo poesia de carácter satírico.

Em 1876,  João de Deus envolveu-se nas campanhas de alfabetização, escrevendo a Cartilha Maternal, um novo método de ensino da leitura, que o haveria de distinguir como pedagogo. Este método, relativamente inovador na época, foi dois anos depois, aprovado como o método nacional de aprendizagem da escrita da língua portuguesa.

A expansão do método da Cartilha Maternal foi seguida de um autêntico fenómeno de culto pela figura do poeta, tornando-o numa das figuras mais populares do último quartel do séc. XIX. Nesse contexto foi organizada em 1895 uma grande homenagem nacional ao poeta, alegadamente iniciativa dos estudantes de Coimbra. Durante a homenagem o rei D. Carlos impôs-lhe a grã-cruz da Ordem de Santiago da Espada e por todo o país foram realizadas iniciativas comemorativas.

Coimbra é um 'altar' da poesia, do encanto, da inspiração, da reflexão, da sabedoria. Escutemos...

Escuta Penedo,
Ouve baixinho,
Não tenhas medo
Não estás sozinho
E quando do além
Te mirarmos
Não chores por nós,
Que não estás abandonado!
Acena-nos, diz-nos adeus
Que havemos de a ti voltar
Mas sempre para celebrar!
Voltaremos para te contar
Que o poeta nos ensinou
Que o sonho comanda a vida
Permanece… Não findou!...
E a ti diremos, a segredar,
Que tens toda a razão:
Saudade rima com idade
E amor com coração!
Escuta Penedo,
Ouve baixinho,
Não tenhas medo
Não ficas sozinho!...
DE TODOS NÓS
F.A.C.Veloso
Coimbra, Maio de 2008

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